domingo, 10 de maio de 2009

Portimão, a capital da Sardinha Assada


Durante todo o Verão, é incontestavelmente a rainha do peixe assado ainda para mais quando se fala de Portimão. Á até que diga que é nesta época quente que naturalmente se encontra mais gorda, e não há peixe grelhado mais saboroso. Prefira-as pequenas e com escama, são as melhores, uma verdadeira delícia.


Quem não se lembra com muita saudade daquelas tabernas, junto à antiga lota de Portimão foi cenário de muitas décadas da faina da sardinha, já que desde séculos se estabeleceu uma estreita relação entre a pesca e o porto de Portimão na zona ribeirinha, cais da lota (hoje transformadas em restaurantes) um pouco mais a frente, onde entrávamos depois de"negociada"cá fora na rua, uma "canastra" de fresquíssimas e reluzentes sardinhas acabadas de descarregar, vivinhas, da traineira atracada ali em frente, na doca dos pescadores.


As tabernas abertas de madrugada para servir os velhos do mar esfomeados e as mulheres que trabalhavam durante a noite nas antigas fábricas das conservas, que durante o dia se trasformava em casa de pasto para servir turistas e locais, havia uma pilha de pequenos fogareiros, de onde se retiráva os necessários (normalmente, um era o ideal para duas pessoas), ao lado, um enorme e mascarrado caixotão, atulhado de negro carvão vegetal. Com este guarnecíamos os assadores, retirávamos de outra pilha um banquinho baixo de madeira para cada um, pedíamos uma brasa a cada grupo de pessoas ( normalmente pescadores ) que já assavam peixe nos respectivos fogareiros, avivávamos o lume com abanicos de palma, e quando o fogo estava "de jeito", sentávamo-nos em redor dos braseiros, colocávamos as grelhas em cima, deixávamos esmorecer um pouco o lume, e sobre estas, já lavadas e salpicadas, as belas sardinhitas.

O peixe para grelhar nunca deve ser salgado com muita antecedência, salpica-se e vai para cima do lume.

Eram comidas à mão directamente em cima de uma fatia de pão, quem tirava da grelha uma sardinha assada, preenchia de imediato o lugar deixado vago por esta, com outra crua.
E ali estávam, contemplando as (nesse tempo) águas do Aráde, comendo, lambendo os dedos e bebendo pela garrafa, do tintol Cramujeira .


Cozo batatas com a pele, grelho as sardinhas em "fogo lento" se o lume estiver muito vivo, a gordura do peixe ao cair sobre o carvão incandescente provoca labaredas que vão"engraxar"o peixe, deixando neste um mau sabor.

Mas também me ensinaram: "Tirem as sardinhas do lume que já tão assadas! isso é só um calorzinho p'ra tirar o sangue da espinha!" e é verdade! sardinhas assadas demais perdem toda a gordura.


Se assar sardinhas com o lume muito vivo, e se o grelhador for grande, junte as brasas para um lado do assador e ponha o peixe no outro, de modo que a gordura não caia directamente em cima do carvão. E tenha em atenção que o peixe não deve estar tempo demais na grelha, asse apenas o suficiente para que não tenha sangue na espinal medula.

Faço uma salada com alface, cebola e coentros picados, outra com tomate (às vezes assado) sem a pele e bem madurinho, cebola e oregãos, e ainda outra de pimentos assados, tudo temperado com sal grosso azeite e vinagre.

Coma as sardinhas sempre à mão (sabem muito melhor), no final lave as "manitas" com um pouco de vinho tinto ou então esfregue as mãos com uma faca de inox e somente água corrente (acredite que é verdade).

Um bom vinhito tintol de jarro, com um pequeno golpe de frio. A fatia de pão que serve de suporte às sardinhas enquanto comemos, e fica ensopada com a riquissima gordura deste peixe, é tostada em cima da grelha. Saboreie no final, e eu aposto que nunca comeu uma torrada assim.

"memórias de familia"


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